quarta-feira, 24 de agosto de 2016

História da modelo Adriana Buzelin


Adriana Buzelin é uma mulher visionária que dedica ao próximo e luta por ideais. Amante das artes, da natureza e da liberdade, Adriana defende causas nobres lutando contra maus-tratos aos animais, a inclusão social em sua totalidade e a aceitação das diferenças. Uma mulher de fibra e de muita garra, acredita que sonhos se realizam através de atitudes. Leal e fiel a seus princípios, Dri para os mais próximos, é solidária e vive em busca um futuro  melhor. 

Foto: Leandro Ribeiro

Adriana Buzelin é a criadora e Editora Chefe da revista digital Tendência Inclusiva. Cursou Relações Públicas, Produção Editorial e Design Gráfico. Era modelo publicitário antes de se acidentar e hoje atua como modelo inclusivo do casting da agência Kica de Castro. Palestrante motivacional aborda temas relacionados à moda inclusiva. Produtora do programa de televisão Viver Eficiente de Osasco - SP.
Colunista colaboradora de algumas revistas do segmento, dentre elas a Revista Reação onde fala sobre esportes e aventuras radicais adaptadas, da 2/1 Revista Eletrônica falando de assuntos gerais e também colaborou com o Site DasPlus falando sobre moda, diferenças e diversidade.


É a primeira mergulhadora tetraplégica mineira registrada pela HSA. Com vários cursos relacionados às artes plásticas e história da arte, foi premiada com diploma de honra ao mérito pela Câmara dos Vereadores através de Silvinho Resende com sua obra em cerâmica denominada Favela.



Com grande vontade de abordar temas relevantes como inclusão, diversidade, autoestima, saúde, igualdade, educação, artes e outros assuntos que levem ao questionamento e a aceitação do universo diverso propiciando bem estar dentro da pluralidade em que vivemos, surgiu a ideia de criar a revista digital Tendência Inclusiva.



Adriana, nos conte como era Adriana antes e Adriana após o acidente automobilístico que sofreu? 
Sempre digo que perdas, seja lá quais forem, não são fáceis.
A Adriana de antes do acidente é a mesma Adriana de depois em sua essência. O que mudou foi a maneira de enxergar o mundo e forma de batalhar pelos meus ideais.
Eu era ainda muito jovem quando me acidentei. Uma jovem começando a construir um futuro. Iniciei confeccionando bijouterias aos 16 anos trabalhando meio horário em uma microempresa de uma amiga de minha mãe e cursando secretariado executivo, curso que ganhei de presente do meu pai Tarcísio Buzelin, que na época trabalhava na Prodemge em Belo Horizonte, acreditando ser necessária já uma formação para ingressar no mercado de trabalho. Trabalhando como bancária cursava, no turno da noite, Relações Públicas nas Universidades Newton Paiva, mas também atuava como modelo publicitário fazendo comerciais para revistas e televisão. Era também produtora de bandas de músicas e de artistas viajando por Minas Gerais divulgando música e arte.
Com muitos amigos, que até hoje fazem parte da minha vida desde a época que estudava na escolinha de infância de minha mãe que se chamava Toca do Coelhinho Feliz, do 1º grau no Colégio Sagrado Coração de Jesus e o 2º grau na Escola Promove de Ensino, e seguia me dedicando ao Marketing e as Ciências Políticas, matérias que mais gostava no curso de Relações Públicas.


                Adriana aos 16 anos                                        Adriana aos 23 anos

Como você encarou esta radical mudança em sua vida?
No meu caso, a perda foi a dos movimentos do corpo todo devido a um acidente automobilístico que me deixou por um bom tempo sem movimentos do pescoço pra baixo. De repente, um dia, saí de casa andando e voltei após 7 meses em uma cadeira de rodas apresentando um quadro de tetraplegia incompleta nível C5/C6. E foi exatamente por ter sido uma lesão medular incompleta e por inúmeros outros fatores que voltei a movimentar, quase por completo, os membros superiores.

A parte mais difícil foi assimilar e aceitar este novo corpo com suas limitações. Eu já não conseguia mais comer sozinha, mudar de posição ou tomar banho sem a ajuda de terceiros. Eu já não conseguia mais frequentar os mesmos lugares que antes, nem usar os vestidos de antes, nem aqueles grandes saltos nas sandálias... eu comecei a observar olhares nunca vistos antes, comecei a entender a palavra preconceito e o significado do termo exclusão.

O fato é que um quadro de tetraplegia não afeta somente o andar e a falta dos movimentos completos nos braços e mãos, mas todo o corpo como a respiração, a circulação, o aparelho urinário e intestinal, a temperatura corporal, a sensibilidade nos membros, dentre tantos outras funções são afetadas também. Então, adaptar-se a esta essa situação é de fato doloroso física e psicologicamente.
Foi necessário o luto. Tive que chorar e lamentar pelo que perdi. Tive meu tempo para isto. Tive que começar a me enxergar neste novo corpo e entender as minhas limitações. Tive que reaprender a gostar de mim, tive que batalhar pela autoestima perdida, e isto foi extremamente difícil, ainda mais careca e sem movimentos. Tive que experimentar novas situações, tive que entender que o olhar do outro não poderia me deixar infeliz, tive que compreender que era necessário mudar valores e conceitos, tive que descobrir que muita coisa ainda era possível, tive que realmente redescobrir minha capacidade. Redescoberta minha real capacidade e minha autoestima tudo mudou. Um leque de opções se abriu para mim e eu consegui enxergar possibilidades.

Um amplo universo, cheio de motivos para viver, brilhou em minha frente e eu entendi o quanto eu ainda podia ser! Ser a mesma Adriana na essência, mas em novo formato. Continuei me cuidando física e emocionalmente. Voltei a estudar, a dirigir, a trabalhar, a namorar, a me divertir, a me expor, aceitar desafios, agradecer a ajuda da minha família mais próxima como meu irmão Márcio Buzelin, minha mãe Iole Marques, meu pai Tarcísio Buzelin, sua esposa e 'mãedrasta' Beth Guadalupe, meu irmão mais novo Tarcísinho Guadalupe, parentes que estiveram ao meu lado na época como meu tio José Carlos,  minha saudosa tia Maria Helena Buzelin e seu esposa Dalnio Starling, minha tia Angela Lucas, meus primos, além de minhas avós Márcia de Souza Marques e minha saudosa e querida avó Helena Brito Buzelin. Sem contar os amigos, que ficam impossível citar aqui, afim de batalhar para que se orgulhassem de mim e, enfim voltar a ter a certeza de que viver é lindo e único.

Como diz uma frase de Carlos Drummond de Andrade com a qual me identifico muito: "A dor é inevitável mas o sofrimento é opcional ..."


Foto: Alessandra Duarte

Atualmente você tem um companheiro e uma família? Nos conte como você enxerga ter uma família mesmo muitos acreditando que pessoas com deficiência não tem este espaço?
Não percebo nenhuma diferença entre a Adriana de antes que andava e podia constituir uma família da Adriana de hoje que usa cadeira de rodas e constituiu uma família como todas demais pessoas que se propõe a isto. Claro que existem ainda dúvidas quanto a sexualidade de uma pessoa com deficiência, por isso é necessário informar o máximo possível de que nossas limitações não nos limitam de termos filhos, de namorarmos, de exercer atividades do lar e casarmos. A quebra de paradigmas se faz necessária pra ontem, afinal existe vida após uma lesão medular como foi meu caso.
Kleber e eu nos conhecemos antes de eu me acidentar através da Denise, irmã dele que é também uma grande amiga, porém só nos reencontramos depois. Somos grandes companheiros, amigos e amantes fieis. Construimos juntos uma vida e um futuro. Nos dedicamos a alimentar nossa relação com respeito e ajuda mútua. Ele é filho de Clausy Soares e Antônio Bertholdo que tiveram o primeiro casamento televisionado pela antiga TV Itacolomi. Clausy, sua mãe, é pioneira como apresentadora de programas de televisão em Belo Horizonte, além de ter atuado como atriz no teatro. Uma mulher empoderada em uma época que poucas se ousavam se destacar. Ele, Kleber, tem um filho de 22 anos chamado Rafael e eu optei em não ter filhos. Optamos criar filhos "peludos" que são nossa paixão e nossa alegria diária quando chegamos em casa.

Retrato de Família: Adriana e Kleber
Chochó, Menina e Pipoca
Foto: Alessandra Duarte


Retrato de Família: Adriana e Kleber

Após o acidente você continuou seus estudos, como foi voltar a estudar? Você acha que aconteceu de fato o processo de acessibilidade e de inclusão no Brasil? 

Após todo o processo de conquista de mim mesma comecei a perceber a necessidade de vivenciar novamente os estudos, afinal sempre fui amante do conhecimento e sentia falta dele.

Comecei fazendo cursos de Artes Plásticas, História da Arte e Escultura, já que minha mãe Iole Marques é Arte Terapeuta. Com isto, criei a "Favela", uma escultura que fala da exclusão, do preconceito e da não aceitação da sociedade daquilo que lhe parece feio e pobre. A "Favela", feita em argila, surgiu das idas com minha mãe a estes aglomerados. Eu com meus 12 anos já a acompanhava visitando seus alunos e me encantava com aqueles becos e labirintos, o que foi acentuado pela visão que eu tinha da janela do meu quarto do Aglomerado Alto Vera Cruz enquanto fazia horas de fisioterapia de pé em 'paralelas'. Com o tempo, fiz muitas exposições, uma delas no Gabinete do ex-prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro e assim fui premiada com o Diploma de Honra ao Mérito pela Câmara dos Vereadores, através de Silvinho Resende.

Como eu já havia cursado Relações Públicas nas Universidades Newton Paiva, bastava ir até a Faculdade Promove e ingressar em qualquer curso da área de comunicação. Escolhi Produção Editorial e lá me deparei, pela primeira vez, com o despreparo de muitos professores quando o assunto é um aluno inclusivo. E foi assim também no curso de Design Gráfico da Universidade Fumec.
Para muitos alunos e professores eu era "invisível", e quando não conseguia participar de alguma atividade me pediam para ficar observando no "cantinho da sala". A curiosidade de ter um aluno inclusivo na sala de aula era grande. Faziam perguntas, muitas perguntas... desde como eu pegava no lápis para desenhar, a como eu fazia para ir aos banheiros não adaptados, ou seja, ir ao banheiro era impossível. Para muitos outros alunos e professores eu era como qualquer outro aluno apenas com particularidades diferentes dos demais. Estes sim eram solidários à falta de acessibilidade da escola. Tanto na Promove quanto na Fumec a administração tentava me encaixar para ter mais integração. Mudavam salas de andar, criavam mesas de desenho com as dimensões da minha cadeira de rodas e sempre se propunham a ajudar no que eu precisasse. Professores com posturas inclusivas me tratavam com igualdade e exigiam de mim o que exigiam de todos os demais alunos. Enfim, foi um grande aprendizado e sou muito grata a estes colegas e professores.

A meu ver, a educação inclusiva no Brasil é ainda medíocre em informação e preparo dos professores. Poucos professores e escolas estão preparados para receber alunos com qualquer tipo de deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão veio com mudanças em diversas áreas, como no trabalho e educação. A lei foi relatada pela deputada Mara Gabrilli, na Câmara dos Deputados, e pelo senador Romário, no Senado, e deu seis meses para instituições públicas e privadas se adaptarem antes de entrar oficialmente em vigor porém muitas escolas não se preparam e não aceitam estes alunos com deficiência. 

"Toda criança com deficiência têm direito a um ensino de qualidade e que atenda às suas necessidades". Tanto é assim que o tema também foi abordado na lei sancionada. Apesar de ser proibido por um decreto do ano passado, surgiram casos de escolas que cobravam uma taxa extra dos pais para o cuidado dos pequenos ao invés de investirem em profissionais capacitados, colocando a inclusão dos filhos nas mãos dos familiares. Liberdade sempre, dos pais ou dos alunos com deficiência optarem, conforme o caso, a escolher escolas especializadas ou não. É direito nosso essa escolha!

Favela - cerâmica
Obra premiada pela Câmara dos Vereadores
de Minas Gerais

Close da obra Favela - cerâmica
Obra premiada pela Câmara dos Vereadores
de Minas Gerais

Como você enxerga o mercado de trabalho para pessoas com deficiência? Você acredita que estes profisionais estão sendo realmente reconhecidos pelo trabalho que desenvolvem?
Esta questão, a meu ver, tem diversas nuances que vão desde a falta de capacitação da pessoa com deficiência ao mercado de trabalho à dificuldade de abertura deste mesmo mercado para pessoas com deficiência realmente capacitadas.

Acredito que com o cumprimento da Lei Brasileira de Inclusão teremos mais adultos, daqui um tempo, profissionalizados e capacitados para estarem inseridos no mercado de trabalho. O mercado de trabalho deverá estar atento à capacitação de pessoas com deficiência, e isto deve ocorrer através da igualdade de oportunidades de acesso à educação. As crianças com deficiência de agora serão os adultos de amanhã, por isso o ensino tem que qualificá-las para terem uma profissão, assim como todas as crianças que frequentam escolas neste Brasil.

É certo que a educação no Brasil está muito aquém do que deveria ser. E é por conta disso que devemos reivindicar melhorias. Escola inclusiva é a base do mercado inclusivo.

E, ao contrário de muitos, sou a favor da Lei de Cotas. Ela é o primeiro passo para inserção das 'minorias' no mercado de trabalho. Sendo Lei, a contratação, no caso, de pessoas com deficiência se torna obrigatoriedade para empresas e, a partir do momento que esta inclusão se torne natural, não haverá mais necessidade das Leis de Cotas, pois já estaremos inseridos e seremos respeitados pela sociedade.

Não somos coitadinhos, longe disso, mas superamos obstáculos a cada dia e isto deve ser valorizado. Não é fácil ser deficiente no Brasil e lutar para mostrar capacidade e justiça. Não quero igualdade, quero justiça. A igualdade não respeita nossas particularidades mas a justiça sim.


Você acha que profissionais com deficiência são vistos como integrantes capacitados no mercado de trabalho?

Acredito que o assistencialismo é um dos grandes males contra a inclusão social. O fato de achar que pessoas com deficiência precisam de âmparo o tempo todo distorce a nossa luta para sermos enxergados como cidadãos comuns. Faz com que a conquista da condição e da capacidade de participação, a luta pela inclusão social e o exercício da cidadania adquiram conceitos errôneos.

Acredito que é informando que conseguiremos mostrar que essas diferenças não fazem menores ou inferiores pessoas com deficiência, negros e mulheres. É através da informação que quebramos paradigmas e temos oportunidades de construir uma sociedade mais inclusiva e justa, respeitando sempre a diversidade com suas particularidades.

Acho que ainda estamos caminhando a passos de formiga neste aspecto, porém já percebi algum crescimento de consciência desde o tempo que me acidentei para cá. Quanto mais informação, quanto mais formos vistos em cargos com evidência na sociedade, quanto mais tivermos poder de voz, mais iremos mostrar nossa capacitação. Para isso precisamos ousar, enfrentar e romper a discriminação e o preconceito levando conhecimento.
Essa é minha missão como colunista de revistas do segmento, como Editora Chefe da Tendência Inclusiva, como formadora de opinião, como mulher com deficiência e como cidadã. Escrevo falando de inclusão, de aceitação e sugiro a reflexão. Dissemino informação e conhecimento. Me exponho para tentar conscientizar as pessoas, talvez até servir de exemplo de que, mesmo tendo uma deficiência, podemos muito mais do que a sociedade nos propõe.

Foto: Amira Hissa
Beauty: Alissa Hissa


Como você disse, antes do acidente, já era modelo fotográfico, com  muitos trabalhos realizados, atuação ativa nesse mercado, uma profissional requisitada. Depois do acidente, as pessoas passaram olhar você com outros olhos, não teve mais trabalhos. Durante alguns anos, passou por mãos de vários fotógrafos, que viram que mesmo sendo uma tetraplégica, não perdeu o charme e tão pouco o jeito em lidar com as objetivas fotográficas. O que você acha que faltam nesses profissionais em não querer fazer a inclusão? 

Ingressei aos 16 anos na carreira de modelo publicitário, porém após o acidente as portas se fecharam para mim mesmo demonstrando capacidade de ainda figurar no mercado de trabalho da moda. O modelo com deficiência não se encaixa no estereótipo quase inatingível pela sociedade. O ser ou estar fora dos padrões é certamente dar por encerradas as possibilidades de atuar no mercado.

O que poucos sabem é que a profissão de modelo é realmente confundida apenas com glamour, não lembrando que, tanto para modelos com ou sem deficiência, é uma atividade que exige estudo, dedicação, empenho e muito profissionalismo. Um editorial de moda ou a gravação de um comercial exigem muitas horas em frente as câmeras, repetindo inúmeras vezes poses e cenas, escolhendo o melhor ângulo, refazendo falas, dentre tantos outros detalhes. São momentos exaustivos para uma foto "glamurosa" ou alguns segundos/minutos na tela.

Lidar com a pouca ética de alguns fotógrafos é algo muito complicado porque eles nem sempre estão dispostos a retratar uma modelo com deficiência com o intuito de inseri-la no mercado da moda e todo este processo acaba dificultando a inserção correta do modelo inclusivo no mercado. Acredito que toda pessoa possa ter um book pago para ser retratada, mas o que difere é o fato desta pessoa acabar sendo iludida por profissionais que só querem vender seu produto, no caso as fotografias. Por isso, falo tanto da ética deste mercado. A sinceridade é a base de tudo, pois é difícil achar uma agência séria, com profissionais capacitados e dispostos a promover esta inclusão. 
Hoje desenvolvo trabalhos como antes, para comerciais de televisão e de mídia impressa. Sou modelo da única agência ainda para pessoas com algum tipo de deficiência da fotográfa Kica de Castro porém ainda encontro muita restrição dos empresários da moda em colocar em seus anúncios uma modelo com deficiência.

O mais belo na inclusão das diferenças no mercado da moda, a meu ver, é mostrar que o mundo é diverso, que existem todos os estilos de corpos, que a diversidade, ao contrário da padronização, é realmente bela. Com a aceitação destas diversidades surgem segmentos da moda que só têm a acrescentar como alguns exemplos: a moda inclusiva no segmento da pessoa com deficiência e no segmento plus size.

Como diz Joaquim Nabuco: 'A borboleta nos acha pesados, o pavão mal vestidos, o rouxinol considera-nos roucos e a águia tem para ela que somos uns rastejantes.'- Tudo na vida é relativo, inclusive a beleza.


Foto: Kica de Castro
Beauty: André Lima

Foto: Kica de Castro
Beauty: André Lima

Que diferença faz para você ter o corpo fora do padrão aceito socialmente?

Não costumo enxergar essa diferença em meu cotidiano. Passei muitos anos da minha juventude, por ser modelo publicitário, sendo considerada linda e, por ser linda, burra. Após o acidente continuei sendo considerada linda, porém diferente. Passei a não precisar mostrar que não sou burra, mas enfrento uma árdua saga de mostrar que sou capaz.

Geralmente não me lembro de que atualmente estou fora dos padrões aceitos pela sociedade. Só me deparo com essa diferença quando 'dou de cara' com os obstáculos, sejam eles de acessibilidade arquitetônica, no vestuário e até no preconceito.

Vivemos em um mundo de intolerância e, o diferente, sempre encara a não aceitação da sociedade que insiste em seguir padrões caretas e um tanto medíocres. Nada é aceito se não for ao encontro do pensamento do outro. Não podemos ser gordos demais, nem magros demais, nem altos ou baixos demais, muito menos termos uma deficiência aparente (porque deficiência todos temos), nem termos  escolhas diferentes dos padrões em credo e orientação sexual, ou sermos de outra raça, enfim, sempre seremos diferentes dependendo do olhar do outro.

Eu, sinceramente, não luto para que aceitem as diferenças, porque pra mim não tem importância essa aceitação. Sim, eu luto muito pelo respeito às diferenças, isso para mim faz realmente diferença.

Porém, não é nada fácil para quem tem mobilidade reduzida ou nenhuma mobilidade encontrar roupas com designer bonito e confortável ao mesmo tempo. Encontrar roupas adequadas às particularidades de uma pessoa com um tipo específico de deficiência é muito difícil e, por conta disso, acredito que muitos acabam optando pela zona de conforto escolhendo apenas roupas mais esportivas. Longe de afirmar que roupas esportivas não tenham seu charme, mas também não é em qualquer lugar que você se sentirá bem vestido com moletons, tênis e chinelos.

A necessidade de um modelo universal de roupas que atenda a qualquer tipo de deficiência, ou a grande maioria delas, é algo necessário. Entrar em uma loja e encontrar roupas do tamanho 36 ao 54 é algo impossível. Encontrar provadores acessíveis também. Achar uma roupa para quem tem nanismo sem se sentir infantilizado, ter informações das peças em braille para quem é cego, encontrar calçados bonitos e com fáceis fechamentos para quem tem pouco movimento nas mãos, dentre tantos outros obstáculos, nos faz desanimar.

Poder ter meu próprio estilo e me sentir bela além de confortável me faz única e inserida em uma sociedade como consumidora. Nós, 46 milhões de pessoas com deficiência, somos consumidores em potencial, basta nos dar acessibilidade e oportunidade de nos vestir sem tantas limitações do mercado.

Foto: Amira Hissa
Beauty: Alissa Hissa


Foto: Leandro Ribeiro

O que você acha do cenário político do Brasil atualmente?
O país infelizmente enfrenta uma situação muito delicada. Muito do que os brasileiros acreditavam, juntamente com suas expectativas caíram por terra, os deixando desamparados e sem esperança. É muito triste ver um país tão desesperançoso com seus governantes e desacreditados com seu futuro. Os brasileiros anseiam por mudanças e necessitam de governantes honestos e dedicados a lutar por um Brasil melhor.

Eu já tive em minha família políticos que atuaram em Curvelo e Ouro Preto, como meu bisavô Allu Vianna Marques do lado materno que foi Vereador de Curvelo e também do lado parterno José Antônio Alves de Brito, meu tataravô que foi Presidente da Província de Minas Gerais no Império (equivalente a governador do Estado na República). Ele era avô da minha avó Helena Brito Buzelin que faleceu este ano. Também Capitão Brito (José Antônio de Brito Neto) que foi Prefeito de Ouro Preto nos anos de 1950 irmão também de minha avó paterna.  Ainda primo de minha avó Octávio Elísio Alves de Brito deputado constituinte de 1988, Secretário de Estado de Minas Gerais e diversos outros cargos públicos e Flávio Andrade que foi Vereador de Ouro Preto, anos 2000, e era primo em segundo grau de minha avó.

Eu acredito que conseguiremos plantar uma semente de esperança em cada brasileiro e, aos poucos, mudarmos este quadro caótico que nos encontramos. Não creio que esta mudança acontecerá de forma rápida, pois exige uma mudança de representantes do nosso povo lutando e os representando de forma verdadeira, isto depende de todos. É nas urnas, na hora de votar e na escolha dos novos representantes na política que iniciamos este processo. É estando atento as propostas e os elegendo para que possamos cobrar dos novos políticos atitudes e ações. A meu ver, o que não dá mais é para aceitar aquilo que já mostrou dar errado, aceitar sem agir  a cultura da corrupção, ser omisso invalidando seu voto e cruzando os braços no momento que nos é dado a possibilidade de mudar, ou seja, no momento das eleições. Não se ganha uma guerra fechando os olhos. Eu não espero nada além de atitudes dos brasileiros porque nós merecemos um futuro digno para todos inclusive para a nossos filhos e netos. 

Vinda de uma família de artistas, como você enxerga a arte como veículo de inclusão?

Sempre convivi com as artes. Meu avô paterno Francisco de Assis Horta Buzelin era Maestro, autor de hinos de Minas Gerais. Minha avó paterna Helena Brito Buzelin era poetisa. Minha tia, Maria Helena Buzelin, cantora lírica conhecida internacionalmente. Minha mãe, Iole Marques, Artista Plástica. Pai Tarcísio Buzelin e tios músicos e/ou artistas plásticos. Tio José Carlos Buzelin também jornalista e colunista falando de música erutida. Irmão Márcio Buzelin que dedica sua vida a música sendo fundador e um dos integrantes Jota Quest. Também sempre convivi com a letras. Minha avó materna Márcia de Souza Marques era Jornalista, palestrante e grande formadora de opinião. Enfim, sempre respirei arte e cultura. Convivi com mulheres muito fortes e guerreiras, mulheres que se destacaram por seu trabalho em épocas que a grande maioria se dedicava a cuidar da casa e dos filhos. A meu ver, ser mãe e cuidar de sua família já requer uma estrutura muito sólida imagine quando estas resolvem ainda trabalhar fora como minha bisavó Raimunda de Souza Marques que foi, na década de 40, a primeira mulher a se graduar em curso superior de Farmácia em Juiz de Fora-MG. Sempre gostei do pionerismo e me orgulho de minha família. Hoje sou escultora, mas antes de me acidentar tocava piano e dançava ballet clássico, além de praticar karatê e natação.

Se você observar tudo no mundo é arte, desde o amanhecer ao anoitecer, dos dias ensolarados às tempestades (que por sinal adoro observar), nas cores da nossa rica natureza, na delicadeza da fauna, nos sons dos pássaros e das ondas batendo nas pedras. Até o silêncio profundo é belo, por isso nada mais natural que a inclusão estar ligada às artes.

Na arte demonstramos sentimentos, provocamos reflexões, incentivamos o respeito às diferenças, levamos beleza e, principalmente o amor. Eu sou idealista, sou romântica e luto por dias melhores. Sou amante da vida! Eu amo viver com todos os seus desafios. E espero que, nesta minha passagem pela terra, eu possa contribuir com um pouco do que penso e sinto. Eu vivo, e parafraseando Gonzaguinha, não tenho nenhuma vergonha de ser feliz.


Adriana e sua obra denominada Favela.
Foto: Alessandra Duarte

Algumas ações do ser humano vão impactar na natureza a curto e longo prazo. Você considera que as pessoas não possuem acesso às informações sobre os problemas de desequilíbrio natural que estamos vivendo ou falta algum programa de inventivo à preservação do meio ambiente?

Falta de informação sobre o cuidado com a natureza, o meio ambiente e respeito aos animais é o que o menos nos falta. Somos, diariamente, massificados pela mídia pedindo e alertando que é necessário, para ontem, cuidar do planeta em que vivemos, porém percebo que, a grande maioria não se desperta para esta emergência, talvez por não acreditar que realmente estamos vivendo uma série de mudanças em nosso planeta que vão desde as mudanças climáticas, como a escassez de água, o aumento da poluição, a extinção de muitas espécies de nossa fauna e flora, a ter realmente preguiça de adquirir novos hábitos que façam que nosso futuro seja mais promissor do que vemos hoje.

Os desastres ecológicos de hoje são consequências da nossa negligência com o nosso planeta ontem. Tragédias acontecem a todo momento por ganância e por termos um governo tão irresponsável no Brasil. Tragédias como a de Bento Rodrigues em Minas Gerais, que assistimos neste mês, afetando todo o ecossistema, perdendo rios, nascentes, matas, florestas, matando pessoas, animais e com consequências seríssimas para nosso futuro. E a multa para estas grandes empresas que destroem nosso país é irrisória e ridícula, praticamente incentivando e anunciando uma nova tragédia.

Eu particularmente e a revista digital Tendência Inclusiva lutamos por esta consciência de que devemos cuidar, preservar e respeitar a natureza. Ações de ONGs e de protetores de animais sempre são bem vindas. Eu luto pela proteção animal em todos os sentidos, divulgando, adotando, sendo madrinha, ajudando estes protetores de animais que se esforçam muito em defendê-los, fazendo doações de alimentos e até financeiramente.


Levamos informações em todas as edições da revista, temos a sessão de adoção de animais de rua, a sessão de solidariedade, a Bio Tendência. Falamos exaustivamente sobre o respeito aos animais em nossas fanpages da Tendência Inclusiva e do Procura-se.

O que falta é ação, é conscientização e atenção aos alertas que estamos, insistentemente, fazendo.

E o mergulha adaptado? Como você enxerga essa atividade?
Nunca sonhei em mergulhar! Sonhava em saltar de paraquedas, mas mergulhar não. Até mesmo por total falta de informação, eu não sabia que poderia me tornar uma mergulhadora.

O mergulho surgiu em minha vida da forma mais linda possível. Meu irmão, Márcio, estava de férias em Fernando de Noronha. Mergulhando de forma recreativa, percebeu que a sensação era tão ímpar e singular que poderia me tirar desde universo terrestre onde enfrento tantos obstáculos físicos. Me ligou, me relatou como era fascinante estar submerso e me fez a proposta de ir tentar fazer o mesmo.

Daí, fui à busca de escolas e profissionais que fossem habilitados em mergulho adaptado. Pesquisei na internet e descobri a pessoa pioneira em mergulho adaptado no Brasil (HSA): Lucia Sodré. Conversando, ela me explicou que a HSA (Handicap Scuba Association), fundada em 1981, dedicou-se a melhorar o físico e o bem-estar social das pessoas com deficiência através do esporte de mergulho, tendo mergulhadores instrutores em alguns pontos do Brasil e um deles em São Paulo. William Palma Spinetti, instrutor credenciado da HSA, dá este curso especializado para pessoas com deficiência. Qualquer pessoa com limitação física e que compreenda as regras de segurança que envolve mergulhar podem, se com saúde, ingressar no mergulho adaptado.

Digo que foi a melhor experiência que tive em toda minha vida.  A partir do momento que adentramos no universo do mergulho, nossa vida se transforma; abre-se um novo olhar e aí não conseguimos viver mais sem. Queremos, cada vez mais, ousar, experimentar, descobrir!  Como tudo que faço em minha vida, afinal sou movida a desafios!

Fundo do Mar

Fotos tiradas pelos companheiros de mergulho de Adriana Buzelin em Bonaire - AN



Capa da Revista Reação

 Adriana Buzelin e seus instrutor William Spinetti em Bonaire - AN



Fotos e release: Arquivos do Entrevistado

por Lícia Lima em 28/06/2016

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